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HISTÓRIAS DE UM CANECO AMASSADO

janeiro 19, 2008

Por: Mariana Lira

Copo de Cristal. Assim é chamado, nos dias de hoje, o loteamento onde ficava o Caneco Amassado, o mais famoso e polêmico aglomerado de casas noturnas de Salgueiro, cidade do Sertão Pernambucano, localizada a 516 km da capital, Recife. A ironia, talvez, sirva para mostrar que a cidade foi limpa de um passado negro e que deve ser esquecido. Entretanto, após 60 anos do fechamento de suas portas, a história ainda suscita curiosidade e fascinação por parte das gerações mais jovens.

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De tão vivo no imaginário popular, o Caneco Amassado foi transformado em peça teatral, escrita e dirigida pelo ator e diretor Jandeir Dias e encenada pelo Grupo de Teatro Togarma. O espetáculo, que conta a estória (ou história?) de Tetéia pão, Josefa, Maria Tovia, Maria Chumbinho e Dulcinéia; Zé do Maxixe, Sitõe Ventão e Antoin Rufino, todos baseados em personagens reais, fala sobre sentimentos, como amor e ódio, e os benefícios, contrariedades e conseqüências de se prostituir há sessenta anos atrás, além de fazer uma leve crítica a atitudes moralistas e preconceituosas. Este ano, ele foi selecionado para participar do Janeiro de Grandes Espetáculos – JGE – mostra anual competitiva de espetáculos de teatro e dança com maior destaque em Pernambuco e, também, espetáculos de âmbito nacional e internacional..

O por quê do curioso nome e de sua extinção permanecem um mistério. O fato é que quando as mulheres do Caneco amassado adentravam as ruas de Salgueiro, a cidade ficava em polvorosa. Elas vinham escoltadas por policiais, pois, vistas como a banda podre do município, eram, também, odiadas pelos mais moralistas, e, por isso, não podiam misturar-se com aqueles que andam na linha. Principalmente por mexerem profundamente com toda a dinâmica da cidade, atiçando o imaginário dos homens e provocando grande ira nas mulheres. “As mulheres da sociedade não podiam deparar-se com as “meninas” do Caneco. Era uma falta de respeito para com as mulheres “de bem”. Por isso, os policiais iam com elas e as conduzia de volta para a reclusão”, conta Jandeir.

O local era o covil para onde as mulheres perdidas, meninas desvirginadas antes do casamento, com idéias à frente de seu tempo, libertárias ou libertinas seguiam para, então, caírem no esquecimento. Mesmo assim, vivendo à margem da sociedade, as mulheres do Caneco Amassado ficaram conhecidas por despertarem amores impossíveis, alguns, inclusive, com desfechos trágicos, e por impactarem a cidade com suas aparições sempre esfuziantes.

A mais conhecida, talvez, acontecia à época do Carnaval, quando Salgueiro era invadida por uma onda de alegria, ousadia e permissividade trazida pela passagem do Bloco do Caneco Amassado. Era quando as moças do Caneco deixavam o ostracismo e abriam caminho cidade à dentro, confrontando-se com olhares que mesclavam curiosidade, reprovação e indignação. No entanto, ao que parecia, sua proposta era a de quebrar tabus. Tanto é que, em um dos anos do Bloco, seu nome mudou para “Ideal”, uma provocação quanto ao status de impróprias e inaceitáveis.

O encanto e o fascínio exercido pelas mais de 40 mulheres do Caneco Amassado atingiam a grande maioria dos homens de Salgueiro. Oriundos de todas as classes sociais, eles procuravam por luxúria e prazeres mundanos, desprovidos dos tabus com os quais tinham de conviver em suas relações familiares e conjugais. Levar o filho a um dos estabelecimentos do Caneco era visto como uma espécie de rito de passagem. “Até mesmo por questões culturais, os pais levavam os filhos para se tornarem “homens” dentro do Caneco”, opina o diretor.

Assim como seu começo e vários aspectos de sua história, pouco se conhece sobre o fim de Caneco Amassado. Sabe-se, apenas, que algumas de suas mulheres continuaram a ofertar prazeres e luxúria aos homens afeitos ao sexo sem medidas e sem barreiras. Para Jandeir Dias, no entanto, a maior causa, talvez, tenha sido a urgência os novos tempos. “A informação e a chegada da televisão também influíram muito neste processo de decadência do Caneco. Hoje, ele permanece apenas no imaginário através dos mais velhos, em histórias do passado”.

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Discriminação. Quando as luzes do Caneco se apagavam e os homens iam-se embora, uma outra realidade abatia as mulheres daquele estabelecimento. Sem a maquiagem e a música, elas tornavam-se mulheres submetidas a uma realidade de exclusão e solidão, na qual sofriam com preconceitos de origem social e econômica. “É claro, que por ser teatro, eu tinha que abordar apenas o lado social, o lado que interessasse ao público, mas a realidade era bem mais forte; cheia de paradigmas e de preconceitos”, conta o diretor.

Contudo, apesar de tantos percalços, é dos tempos da ribalta, vividos dentro da grande história do Caneco Amassado, que suas personagens, ainda vivas, sentem falta. “Quando as entrevistei, notei que são infelizes. Perguntei a elas se queriam voltar ao passado do Caneco Amassado e as respostas foram sim. Embora sejam mulheres respeitadas hoje, mães de família, lembram com grande nostalgia e olhos úmidos o apogeu do Caneco Amassado”, comenta o autor.
A REALIDADE DE ONTEM ENCENADA NOS PALCOS MODERNOS
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Quando o Ator, Diretor e Produtor Cultural Jandeir Dias lançou o Grupo de Teatro Togarma, em 2006, já guardava, carinhosamente, a idéia de transformar as histórias que ouvia de seus avós sobre o Caneco Amassado em uma peça teatral. O fato de a história permanecer 60 anos praticamente esquecida foi apenas o empurrão do qual precisava. “Sempre achei injusto as pessoas não lembrarem dessa fase perfumada da cidade. Quando fundei o Grupo de Teatro Togarma, decidi que seria legal abordar essas histórias no teatro”.

O processo de construção da peça levou mais de um ano, tempo no qual o diretor-autor fez pesquisas de campo, entrevistando os personagens reais que guardam lembranças saudosas da ribalta do Caneco. As cenas principais, no entanto, “vieram em três dias. Mas o roteiro final, a arte final, o acabamento em si, tudo aconteceu na semana que antecedeu a estréia” lembra Jandeir, ainda impressionado com a forma como tudo aconteceu.

Para a realização do projeto, o Grupo contou apenas com o patrocínio do comércio local. “Embora não possamos ter acesso aos recursos do poder público, foi gratificante contar com o patrocínio do comércio local, que entrou nesse desafio com o grupo”

Expectativa – Após as primeiras apresentações, que aconteceram nos dias 11, 12 e 13 de Janeiro, no Clube Talismã, de Salgueiro, ficou comprovado o real interesse o qual o público nutre por esta passagem da história de Salgueiro. “Antes da peça, eu achava que as pessoas queriam esquecer, mas hoje eu vejo que não há preocupação em banir essa história”. Quando ao propósito do espetáculo, ele ressalta: “Espero despertar sensibilidade e emoção, alegria e tristeza. Espero aflorar sentimentos diversos, juntos em cada passo e em cada gesto que as personagens transmitem.”

Serviço:
O Caneco Amassado
Autoria e Direção: Jandeir Dias
Encenação: Grupo de Teatro Togarma (Salgueiro)
Data: 20/01/2007 (domingo)
Horário: 20:00
Local: Gerência Regional de Educação – G.R.E
Senhas limitadas à venda na G.R.E (87 – 3871 0480)